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Dossiê CONRADO SANCHEZ

COMO AFOGAR O GANSO

Direção: Conrado Sanchez
Brasil, 1984

Por Matheus Trunk

Guardado a sete chaves e jogado no limbo da história, o filme mais autoral de Conrado Sanchez permanece esquecido há muito tempo. Mesmo após “Cinderela Baiana” ter se tornado cult entre os cinéfilos e até comunidade no Orkut, este “Como Afogar o Ganso” permanece como uma obra praticamente inacessível.

Somente estudiosos de cinema brasileiro B o conhecem e admiram. De qualquer maneira, antes de dizer uma coisa ou outra sobre o filme é bom lembrar que este é com toda certeza, o trabalho mais “sério” e original de Sanchez como diretor.

Feito no ano de 1984, onde o pouco cinema feito na Boca se resumia aos já audaciosos filmes de sexo explícito, este fica mais para esta categoria. Embora o próprio diretor negue, este filme está mais para explícito que para uma pornochanchada convencional ou uma comédia inocente.

Mas isso não significa que o filme seja ruim. O clima está extremamente mais propício que no primeiro “A Menina e o Estuprador”, por exemplo. E este “Como Afogar o Ganso” não é um filme convencional dos explícitos, já apontando para produções mais audaciosas como “Oh Rebuceteio” e “Excitação”, dos poetas Cláudio Cunha e Jean Garret, respectivamente. Feito na cara e na coragem, o filme conta a história do jovem Rodolfinho (interpretado pelo genial Paulo César), um garoto que sonha em afogar o ganso, literalmente.

Feio e pobre, ele chega todo dia atrasado ao trabalho, uma lavandeira de um chinês chato e falante (feito pelo gigante John Doo). Sua situação ainda é mais humilhante frente a seus amigos, que conseguem abater várias lebres, enquanto Rodolfinho acaba sempre se dando mal. Após broxar frente uma cliente mais velha e extremamente desejável (Zilda Mayo, como a mulher anos 80 fatal) tenta ainda a carreira esportiva no boxe. Mas magro e completamente franzino, nosso herói acaba tendo um novo fracasso, sendo humilhado mais uma vez frente ao dono da academia (feito pelo mitológico Satã, colaborador usual de José Mojica Marins, o Zé do Caixão e presente na capa do melhor disco de Zé Ramalho).

Para tentar resolver seus problemas amorosos, Rodolfinho tenta apelar para as profissionais. O resultado é pior ainda. No primeiro momento, ele tenta ir juntamente com os amigos, nosso herói broxa novamente. Porém, dessa vez, ele acaba consolando a meretriz com um artefato de sex shops e a satisfaz plenamente.

No segundo momento, quase que ele chega a um sucesso. Vê uma linda mulher na rua, que fica sorrindo pra ele. A leva a um quarto e a começa a beijar, desde os pés. Tudo parece caminhar para o fim da nossa história. Porém, uma grande surpresa: Rodolfinho tira a calcinha da moça e descobre que na verdade trata-se de um travesti.

Suas chances não são grandes com sua namorada (Vanessa Alves, no auge) que está mais interessada no artefato que ele comprou no sex shop. Jurando vingança a todos, em apenas um dia nosso herói consegue humilhar todos os que o humilhavam, se vingando deles e ainda afogar o ganso, literalmente.

Feito com uma coragem de Indiana Jones e com uma originalidade impressionante mesmo depois de mais de vinte anos de sua produção, “Como Afogar o Ganso” permanece com toda certeza, como um clássico do cinema da Boca do Lixo paulistana.

Se alguém tiver a chance de ver todos os filmes de CS citados nesse dossiê, poderá ver que neste ele tentou mais do que nunca deixar uma marca própria. Escrevendo, dirigindo e ainda mais fotografando a história, o faz-tudo Conrado chega aqui a talvez o maior momento de sua longa história no cinema paulista.

Há alguns problemas com o tempo do filme, que poderia ser mais curto e sem tantas cenas de sexo, que acabam atrapalhando a trama chanchadesca e humorística desta película. Mesmo assim, Sanchez teve a cara e a coragem de fazer pelo menos um único filme para permanecer entre os mais ousados e autorais feitos na Boca do Lixo paulistana.



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