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Dossiê CONRADO SANCHEZ

A MENINA E O ESTUPRADOR
Direção: Conrado Sanchez
Brasil, 1982.

Por Matheus Trunk

Na história do cinema, a estréia de grandes diretores sempre é brilhante. Samuel Fuller, por exemplo, começou com uma obra de peso como “Eu Matei Jesse James” ou Pasolini com um filme forte como “Desajuste Social”. Mesmo no cinema brasileiro, os exemplos são muitos como Anselmo Duarte com “Absolutamente Certo” e Glauber Rocha com “Barravento”.

Porém, quando caímos na Boca do Lixo e o estreante é Conrado Sanchez, a coisa acaba sendo um pouco diferente. Intelectual, presente nos anos 80 em encontros da UBE (União Brasileiro dos Escritores), CS parece não ter a mesma empolgação de estreante de seus outros companheiros de profissão.

Mas mesmo assim, ele entrou no barco com a cara e a coragem e fez essa fita para o mitológico AP Galante. O produtor deu ao filme o mínimo do mínimo do dinheiro.Seguinte o próprio Conrado, a “equipe inteira cabia numa Kombi”.

Pra economizar ainda mais, Galante subiu Conrado Sanchez ao cargo de diretor (anteriormente fotógrafo de cena, assistente de produção e assistente de direção). E não foi só ele: o fotógrafo estreante Concórdio Matarazzo era somente mais um assistente de câmera da Boca. Mesmo o continuísta e assistente de direção, Eduardo Aguilar não passava de um mero estagiário. Da equipe técnica, somente o montador, Gilberto Wagner, já tinha alguma grande experiência em seu posto.

É bom ressaltar que a seleção da trilha sonora (tendo até “Breaking The Wall”) é do famoso e importante crítico paulistano Jairo Ferreira, amigo de Conrado na época.

Vanessa Alves, como a personagem principal e então com dezenove anos, estava no auge do talento e da beleza. Ela dá um brilho especial ao filme. Esse foi o segundo filme da atriz, contratada por Galante e tendo estrelado anteriormente somente “A Filha de Emmanuelle” de Oswaldo “Carcaça” Oliveira. Ela seria depois reconhecida pela crítica, chegando a receber o Kikito de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado por “Anjos do Arrabalde” de Carlos Reichenbach. Vanessa também se tornaria a “atriz fetiche” de Carlão.

A história é uma das mais comuns do “Brasil mundo cão”, Ratinho e etc: menina rica, bonita e muito desejável (Vanessa Alves, perfeita como sempre), sonha que está sendo estuprada a todo momento. Muitas vezes, ela imagina essa série de situações com seu motorista e modormo (interpretado pelo fantástico Zózimo Bulbul). Com as dificuldades de relacionamento amoroso, a menina acaba procurando um psicólogo (Rubens Pignatari, antológico). O psicólogo acaba a confundindo ainda mais, tentando levá-la a maus caminhos.

Porém, ela acaba se libertando de conseguindo ser normal, como todo mundo. Uma fita sem maiores preocupações e sem grande preocupação autoral. Conrado não tentou inovar grande coisa no filme. Somente realizou um trabalho correto de artesão, capaz de fazer o espectador simples de 1982 ver o filme.

E nisso teve grande sucesso: o público foi tamanho que conseguiu uma espécie de continuação com o mesmo enfoque (o seguinte “A Menina e O Cavalo”) e possibilitou o produtor Galante comprar mais uma fazenda de gado.

Se algum interessado conseguir uma cópia de “A Menina e o Estuprador”, é bom não sair por aí dando pulinhos de alegria ou coisas do gênero. É um filme mais que normal da Boca paulistana, sem grandes curiosidades ou peculiaridades. Na verdade, seu resultado final não é grande coisa mesmo e até seu próprio realizador não tem grandes orgulho dela.

Acusado de preconceituoso em um recente estudo sobre negro no cinema brasileiro, “A Menina e o Estuprador” não merece tal acusação. Embora o cartaz do filme tenha esse chamativo, no final da trama fica provado que tudo não passava de um delírio da cabeça da menina. E não pensem que um ator do porte e da inteligência de um Zózimo Bulbul (que fez inclusive “Terra Em Transe” de Glauber Rocha e dirigiu diversos curtas sobre a questão do negro), faria um filme de cunho preconceituoso. Ele pensaria duas vezes em aceitar um projeto que tivesse esse enfoque.

Quando estive fazendo a entrevista com Conrado, levei uma cópia desse filme e ele copiou. Eu fiquei alegre de poder estar ali, sendo um instrumento de levar o filme ao seu realizador, me sentindo o próprio Paulo Emílio da Boca. E nessa euforia disse a ele: “É bom o senhor ter a cópia, afinal assim, o senhor poderá mostrar pros seus filhos um filme que o senhor realizou”. Ele me olhou meio espantado. E depois, pegou umas coisas dentro da Cinearte e me disse que ia embora.



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