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O que a Crítica sabe?!
Por Gabriel Carneiro

Serpentes a Bordo
Direção: David R. Ellis
Snakes on a Plane, EUA, 2006.

Serpentes a Bordo estreou nos cinemas com aura de cult pelo título e pela participação do multifacetado Samuel L. Jackson. Logo a crítica caiu matando, a bilheteria despencou e só comentários negativos foram feitos, principalmente pela dita Crítica especializada. Muitos membros ativos na crítica amadora inclusive mal-falaram essa espécie de nova incursão ao cinema trash-terrir. Os poucos comentários positivos que vi em publicações de influência foram feitos por quem sempre elogia todos os filmes lançados – e o estranho é ver que até alguns desses críticos que só vêem o lado positivo, refutando a magnânima do filme das cobras.

E o pior é ver o alto escalão da Crítica cinematográfica brasileira falando que é mal-feito, que tem cenas escatológicas, péssimos efeitos-especiais, e cujo roteiro não prende o espectador nas poltronas. Além de entediante, mais faz rir do que assustar. Percebe-se claramente que quem o escreveu, nada do filme compreendeu. Óbvio, pois o filme é propositalmente feito com o intuito de ser um belo terrir-trash. O cinema trash existe há muito tempo, e aparece principalmente em filmes de terror e de ficção científica. Geralmente com baixos orçamentos, e de realização bem precária, mostra diversas falhas no aspecto técnico (como o polvo gigante de A Noiva do Monstro, de Ed Wood; ou mesmo os raios do professor em O Corvo, de Roger Corman). Muitas vezes cultuados como filmes B de alta qualidade. Já o terrir encontra sua base etimológica na fusão das palavras terror e rir. Ou seja, o terror tão absurdo e banal que te faz rir. Surgiu em meados da década de 80 como vocábulo, década em que há muitos representantes. A não ser que alguém realmente esperasse algo sério e apavorante de um filme cujo trailer diz: “A temporada de grandes filmes começou e você vai ver os maiores sucessos. Filmes que têm grandes estrelas, piratas aventureiros, códigos elaborados, super-heróis incríveis e desenhos animados, mas existe uma coisa que nós garantimos que eles não têm... SERPENTES A BORDO”.


Atestado do gênero
(clique na figura para melhor visualização)

O grande trunfo do filme é fazer divertir com uma história um tanto tosca e absurda - para eliminar quem pudesse o condenar a prisão, uma mafioso coreano enche o avião que traz o garoto, de cobras venenosas com feromônios no ar -, e usar o imaginário muitas vezes sádico das pessoas. David R. Ellis tem a coragem de fazer o que grande parte do espectador quer, como na cena que um sujeito, para salvar a própria pele, atira o chatíssimo Chiuaua – não sei como se escreve -, da garota claramente baseada na Elle Woods (do começo do primeiro filme, principalmente) de Legalmente Loira, na boca na cobra gigante. Esse me foi um momento de êxtase e furor, pois quebra com o politicamente-correto. Quem dera Spielberg tivesse usado a mesma técnica em Guerra dos Mundos e tivesse feito um dos tripods atirar na insuportável Dakota Fanning.

Não sou grande fã de Jackson, porque ele sempre faz a si mesmo. Mas dessa vez isso dá certo, pois com toda sua pompa, ele adquire um tom de canastrice que condiz perfeitamente com a atmosfera do filme. Inigualável que só ele, ainda há espaço para o seu habitual diálogo: “Enough is enough! I have had it with these motherfucking snakes on this motherfucking plane!” (Bastante é bastante! Já me cansei dessas cobras filhas-da-puta nesse avião filho-da-puta. – Na verdade, motherfucking ou motherfucker não tem um vocábulo próprio em português, mas acho que é traduzido assim). Além de outras pérolas: “Well, that's good news - snakes on crack” (Bem, essas notícias são boas – cobras sob o efeito de crack); “SJ: It's getting hot in here...// NF: I'm from Tennessee, I didn't notice!” (SJ: Está ficando quente aqui…// NF: Eu sou do Tennessee, não percebi!).

O filme pode ser encarado como um jogo de videogame, com a exclusividade de serem pessoas de carne e osso naquele meio. Isso se revela com o substituto do piloto, mas pode ser percebido ao longo da projeção. Primeiramente, as cobras extremamente virtuais, secundariamente com o ângulo que filmam os “caçadores” das cobras e exploradores do avião. Além de muitas vezes colocar a câmera na altura do homem, incorporando sua própria visão do que fará. E para não excluir a linguagem cinematográfica, espalha os clichês e os sentimentalismos a ponto de dar vida no filme. Nisso, R. Ellis mostra a intenção de banalizar os filmes do gênero com os personagens planos, com o heroísmo fajuto, com os pequenos sustos e além de tudo, com o simbolismo sexual das cobras. Dolorosa, porém hilária, é a cena em que um ofídio se depara com um idiota urinando. Primeiro, com palavras ele vai construindo seu estereotipo, depois, quando vai aos poucos acertando a cobra durante sua movimentação. Não dá outra, o animal ataca a genitália do sujeito e não larga. E banalizando reverencia. Sim, pois seu objetivo não é fazer arte, é trazer um mundo tão irreal e nos causar gozo através da adjetivação de um certo ludismo.

O que entendo menos ainda é ver críticos que cresceram assistindo à Sessão da Tarde (e todos seus derivados) avacalhando tal obra. Serpentes a Bordo será o clássico da Sessão da Tarde daqui uns 5, 6 anos, e a próxima geração reverenciará tal filme, como hoje veneramos De Volta Para o Futuro, Karatê Kid, Edward Mãos de Tesoura, entre outros. E falar que o diretor não sabe o que faz é um equívoco, ele faz cinema comercial para entretenimento, homenageando o trash e o terrir. Essa mania que grande parte dos críticos têm, de refutar produções hollywoodianas e apenas consagrar filmes europeus, asiáticos, e de circuito alternativo, reduziu a capacidade de tais. Procurando tais filmes, como forma de ampliar sua visão, fez em parte, diminuí-la.

E que Serpentes a Bordo se consagre na TV.



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