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Coluna Estranho Encontro
CINEMA BRASILEIRO PELA ÓTICA FEMININA

Por Andrea Ormond

O Ébrio
Direção: Gilda de Abreu
Brasil, 1946.

Parodiando Drummond, Vicente Celestino é “uma fotografia na parede, mas como dói”. Sempre que penso nele me deprimo com a expectativa do que deveria ter sido sua rentrée triunfal no showbusiness dos anos 60. Velho e representante de um mundo que àquela altura cada vez mais desaparecia, Celestino foi convidado a participar de um programa de tv com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Morreu horas antes.

Cantar “Coração Materno” com aquele bando de garotos aloprados. Será que ele compreenderia a cena? Imagino-o assustado, mas continuando desenvolto, com aqueles gestuais anacrônicos. Para mim, surtiria o mesmo efeito assistir a uma peça com Procópio Ferreira dirigido por Gerald Thomas.

No longínquo ano de 1946, Vicente Celestino era em “O Ébrio” o doutor bacana (Gilberto Silva), boa praça, que sobe aos píncaros da glória depois de perder tudo na cidade natal. É ajudado por um padre, e emocionado, escreve-lhe uma canção que vira sucesso na rádio. “Porta aberta” lembra o hinos evangélicos de hoje em dia, mas a abordagem é católica. “Porta aberta... Tendo o emblema de uma cruz... Essa porta não se fecha... Contra ela não há queixa... São os braços de Jesus”. Closes na imagem do Cristo crucificado e no olhar de agradecimento de Gilberto, porque a vida recomeçava.

Um dos elementos mais autênticos em filmes como “O Ébrio” é a ausência total de estabilidade na trama. O que parecia felicidade para Gilberto se consome com as novas marmotas que lhe pregam os parentes (dentre eles o humorista Walter D´Ávila, o Baltazar da Rocha da “Escolinha do Professor Raimundo”, caracterizado de idoso).

Perde a mulher, perde os amigos, assume a identidade e as roupas de um mendigo que acabara de ser atropelado. Como diz a canção título, “tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer... aquela ingrata que eu amava e que me abandonou... apedrejado pelas ruas vivo a sofrer... não tenho lar e nem parentes... tudo terminou...”.

Mas antes que vocês cortem os pulsos, horrorizados, é preciso que eu faça alguns comentários. Primeiro: não se assustem. A estrutura de “O Ébrio” é radiofônica, do tipo produzido pela Rádio Nacional, que levava milhões de ouvintes ao choro compulsivo pouco antes do jantar, entre um comercial de “Rhum Creosotado” e outro. Até curar criança paralítica o dr. Silva cura.

Segundo: dirigido pela esposa de Celestino, a também atriz Gilda Abreu (que estreava como diretora e aparece rapidamente em close nos créditos, em curioso momento meta-linguístico), “O Ébrio” é adaptação da peça homônima escrita pelo cantor. Peça, música e filme foram de imenso sucesso. E a película, com mais de 12 milhões de espectadores, deu cacife político e financeiro a Gilda, que pôde embarcar em novo projeto bancado pela Cinédia, o dramalhão “Pinguinho de Gente”, fracasso de público que levaria a produtora à falência.

Terceiro: João Carlos Rodrigues, em “O negro no cinema brasileiro” já lembrava da participação de parcos atores negros no filme. Todos evidentemente debilizados, à moda do patriarcalismo getulista da época. A cena que mais me chama atenção, provavelmente uma das mais brutais em todo cinema brasileiro, devido à simplicidade de suposto lirismo, ocorre com a empregada de Gilberto Silva, ajoelhada aos pés do patrão, que acabara de saber do abandono familiar: “Patrãozinho, eles são brancos... mas têm a alma da cor da minha pele.”

O filme, portanto, possui curiosidades a mil, basta ao espectador capturar as pepitas. De toda forma, o fascínio que sinto pelos astros da Rádio Nacional facilita este trabalho arqueológico. Lembro-me de, ainda pequena, passar pela rua Barata Ribeiro em Copacabana e a multidão, parada na rua, olhava pra cima. Os mais novos urravam “pula!, pula!”, os mais velhos cochichavam, no misto de pena e prazer sádico: “tadinhas, tão famosas. Ficaram malucas. Tanto ouro, tantas jóias, carros caríssimos.” Eram Dircinha e Lindinha Batista, irmãs, cantoras festejadas no Cassino da Urca e importantíssimas, hoje falecidas. Trancadas no apartamento, davam início a mais uma tentativa de suicídio.

Vicente Celestino foi-se embora, em 1968, emocionado com a homenagem dos meninos tropicalistas. Era o término do ostracismo total, que tudo deturpa e transforma o talento em fantasma pitoresco, que vaga pelas ruas, desprovido de sentido.



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