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Coluna do Biáfora

ANCHIETA, JOSÉ DO BRASIL

Por Rubem Biáfora, artigo selecionado por Sergio Andrade

A julgar pelo folheto publicitário e pela entrevista concedida a outro matutino, ambos de uma euforia que é um vitupério que lembra os processos do getulismo, do peronismo ou do ademarismo, isto é, não desmentem a “formação” e as eternas raízes brasileiras do nunca extinto pessedismo que sempre foram o forte do movimento “cinema novista”, algo pouco animadoras as realidades desta versão Paulo César Saraceni sobre a obra de Anchieta e a fundação de São Paulo. Obra de um otimismo estalinista (como ainda ontem, também sem nenhuma consideração para com a capacidade de raciocínio do próximo) sem rebuços e euforicamente ditava outra entrevista, a de Arnaldo Jabor? Ou de um ecumenismo à Paulo VI, mas pendendo só para as raízes africanas, até umbandistas e mandando claramente às favas as origens latino ibero-cristãs? Ou ainda apenas de uma “oportunidade” tipo samba-enredo – como as já vinham de “Macunaíma”, “Xica da Silva” e até mesmo “Aleluia, Gretchen”? Ou se trata apenas da conhecida e até patética capacidade de luta pela sobrevivência e provento particular? Seria estranho, se não se soubesse que os ultra estalinistas festivais de Brasília e Gramado recusaram o filme por uma (possível?) carga de misticismo anti-dialético (mas e a macumba? O umbandismo?) e o “Carnaval Sagrado”, o “samba-enredo”? Contudo, como “mão cinemática” Saraceni sempre se saiu bem em todos os seus filmes, até em “desconversas adventícias” como “Amor, Carnaval e Sonho”. O que vimos de “stills” e fotos fixas em “avant-traillers” sempre nos pareceu expressivo. E vamos torcer para que distorções de pretensa formação ideológica à parte (ah “Idhecs”, escolas do Centro Esperimentale de Roma, viagens e gregorianos, quanto mal causaram ao nosso cinema!) o filme seja cinemático, como os anteriores “Porto das Caixas”, “O Desafio”, etc.”

*Publicado originalmente em “O Estado de São Paulo” em 21 de janeiro de 1979



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