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COMIDA E CULINÁRIA NO CINEMA EXTREMO
Por Marcelo Carrard

Recentemente um interessante filme brasileiro chegou aos cinemas: ESTÔMAGO, dirigido por MARCOS JORGE. O filme tem no elenco os excelentes JOÃO MIGUEL e FABÍOLA NASCIMENTO. A trama narra uma interessante fábula sobre Poder, Sexo e Comida, tendo como cenário principal um presídio. É muito interessante como essas relações de poder e sexualidade, ligadas ao ato do preparo dos alimentos, desenvolve-se no filme. O dom culinário da personagem de João Miguel surge como sua grande arma para sobreviver em um ambiente hostil. O filme abriu meu apetite para relembrar de outras obras que trataram de maneira singular o tema da gastronomia no Cinema.

Dentro do Cinema Brasileiro, é inesquecível o fascínio do preparo dos pratos quentes da culinária da Bahia feito pela eterna Dona Flor de SÔNIA BRAGA. Outro notório sucesso popular foi o dinamarquês A FESTA DE BABETTE, onde vemos fascinados o preparo de um sofisticado banquete como eixo central da trama. COMER, BEBER, VIVER, de Ang Lee é outro desses filmes deliciosos onde a comida surge como “Prato Principal” do roteiro. Mas existe um lado mais obscuro dessa visão sobre a gastronomia no Cinema, onde as coisas ficam muito mais interessantes, principalmente para os nossos queridos leitores da ZINGU!...

Começando pela Ásia, um dos filmes mais interessantes é DUMPLINGS aka ESCRAVAS DA VAIDADE, de Fruit Chan, um perturbador longa de Hong Kong que tem uma versão reduzida e de final diferente no longa em episódios THREE EXTREMES. Em DUMPLINGS para quem ainda não teve a sorte de ver, vemos em cena uma vaidosa mulher a procura da juventude eterna para segurar seu casamento. Ela recorre aos serviços de uma famosa “catimbozeira” que prepara bolinhos muito especiais. O horror se instaura no filme quando é revelado o segredo sobre um dos ingredientes dos tais bolinhos, os dumplings do título original, nada mais, nada menos, do que fetos humanos fresquinhos, daí o filme realmente começa.

Da China vem outra bizarrice extrema intitulada EBOLA SYNDROME, onde um chinês completamente desequilibrado injeta o vírus ebóla nos pratos do restaurante onde trabalha na África. Numa mescla de imagens grotescas e absurdas, com momentos de uma certa elaboração, o filme tem seus méritos, mesmo com um roteiro tão absurdo. Nessa linha de injetar vírus em alimentos, tem um filme norte-americano dos anos 70, intitulado: I DRINK YOUR BLOOD AND I EAT YOUR SKIN, onde um moleque encapetado injeta o vírus da raiva em tortas servidas para a população de uma cidadezinha do interior, transformando todos em zumbis carniceiros e raivosos, simplesmente sensacional, uma tosqueira obrigatória.



Com relação ao já citado jogo do poder, temos no alegórico A COMILANÇA, de Mario Ferreri, um exemplo singular. Com um elenco de Mestres, o que surge em cena é o encontro entre amigos que se jogam em uma orgia de sexo regada ao consumo de muita comida, num êxtase da carne em todos os sentidos até explodir o horror, a escatologia e a morte. Transgressor e genial, esse filme ficou interditado muitos anos pela Censura do Regime Militar do Brasil. Como grande Obra-Prima ligada diretamente ao universo da Gastronomia, da sexualidade e do poder, temos: O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE, de Peter Greenaway. Nesse clássico absoluto dos anos 80, o que se desenrola é um desfile de cenários com tensões cromáticas individuais que passam do estacionamento azulado, pela cozinha verde, pelo restaurante vermelho e pelo banheiro branco, numa espécie de relação com o caminho dos alimentos pelo aparelho digestivo. Vemos em cena representações de naturezas-mortas, conectadas diretamente ás representações pictóricas do barroco holandês e italiano. Uma imagem do célebre quadro da Guarda Civil de Haarlem, do Mestre Franz Hals tem uma representação de poder ligada ao ato da mesa, da reunião em volta da mesa para as refeições. Vemos no filme a ingestão de alimentos e ao mesmo tempo de páginas de livros encaminhando todo o percurso da trama para a ritualística cena final de canibalismo onde o corpo do amante surge como representação de uma natureza morta. As alusões da literatura clássica e da Revolução Francesa se configuram no filme, sempre ligadas ao ato de comer.

Na Inglaterra relembro de dois filmes muito interessantes. EATING RAUL e principalmente EAT THE RICH. Esse último foi dirigido por Peter Richardson, em 1987, o filme tem uma trama genial. Um grupo de excluídos, entre eles um imigrante ilegal, negro e gay, se vingam dos ricos que os humilhavam tomando conta de um restaurante politicamente incorreto em Londres, onde até ursos panda bebês são servidos, só que depois os próprios ricos e poderosos acabam indo para o forno. Para melhorar mais ainda o filme tem a participação de Paul MacCartney em uma ponta e músicas do MOTORHEAD, entre elas o clássico ORGASMATRON.

O cardápio é bem grande, bem vasto, mas os filmes aqui citados já são uma boa entrada. O negócio é se servir. Um Bom Apetite, crianças!!!



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