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A primeira impressão nem sempre é a que fica (ou como querer esconder heresias do passado)

Por Gabriel Carneiro

Matheus Trunk convidou-me para escrever numa revista eletrônica sobre cultura há um mês e meio. No começo, o projeto estava fadado ao seu próprio fim: ninguém sabendo usar os comandos de um domínio internetesco, ninguém pretendo pagar um, falta de exposição, pessoas, e principalmente de alguém que soubesse mexer em algo diferente de um blog. A idéia de jogar links, sem eira nem beira, numa página exclusiva de um blog, desagradava-o profundamente. Quando lançou a entrevista com Eduardo Aguilar em seu blog, percebeu uma maneira. Uma maneira simples, fácil de manusear, que sim, pode até ser desconfortável de ler como uma revista; mas o conteúdo é o mais interessante, certo? Assim, surgia os primeiros vestígios da revista que se chamaria Mammoré (com dois ‘m’s para não causar confusão). Hoje Zingu! é o início de um projeto – e com a publicação através de um blog já aceita. Temas livres, como nas redações de escola. E há duas coisas sobre temas livres: ótimo, pois você não é obrigado a escrever sobre algo que te desagrade; péssimo, pois você é obrigado a encontrar um tema que possa ser interessante. Matheus sugeriu-me que escrevesse sobre os grandes clássicos de Hollywood, sobre Capra ou Lean – hoje tão ignorados, ou não apreciados como deveriam, pelas pessoas, principalmente de minha idade -, até sobre bicicletas. Não queria escrever sobre mestres do cinema como Capra ou Lean sem poder pesquisar tanto quanto gostaria e assistir mais de suas obras. Passou-me pela cabeça redigir um pouco sobre o ótimo ator Edward Arnold, eterno coadjuvante e freqüente no cinema de Capra. O problema é a falta de filmes disponíveis com ele a que posso (pude) ter acesso, e a falta de informações mesmo em sites de língua inglesa. E é assim que surgiu a autocrítica. Para começar uma nova vida com a Zingu!, limparei minha alma de mais de dois anos de críticas e comentários cinematográficos. Só assim poderei ser franco com matérias do futuro.


A Persistência da Memória, Salvador Dalí

É importante dizer que mentes amadurecem e pessoas mudam. Experiências causam inevitáveis e inesgotáveis reflexos num ser humano. O tempo, o velho tempo; aquele à beira de nossas vidas que ocasiona as mudanças. Dizem, aqueles vividos, que o passado condena, e de fato estão certos. Ele só condena porque mudamos; a inevitabilidade da mudança – o que esperar? O tempo passa, as pessoas envelhecem e adquirem uma gama de referências que modificam a mente. Muda-se o contexto, muda-se a mentalidade. Não somos mais a mesma pessoa - seria estranho pensar que não há nada que tenhamos falado que continue com o mesmo vigor. É importante manter uma certa postura, ao menos uma postura lógica dentro das suas mudanças. Há coisas das quais me envergonho falar, coisas bestas, devido a uma crença estúpida deflagrou hoje o completo oposto. E isso porque vivenciei novas coisas, aprendi mais, usei mais. Hoje, olho para certos objetos, releio textos e reflito sobre certas posturas ideológicas, e vejo como não sou o mesmo. Sinto-me mudado, algo novo, talvez mais maduro, enraizou-se em meu antro. Creio que ao falar sobre certos tabus, já não serão mais tabus. E creio também que alguns tabus jamais deixarão de ser tabus. Aquela idéia da somatória de experiências – o que torna tão grande a arte é justamente essa somatórias de experiência e referências e vivências -, que vai transformando um ser puro, ignorante, teimoso e besta, em alguém que ganhou percepção. O velho é como se fosse o novo, não há mais aquele sentimento de tédio – ou há? -; é a contemplação do novo mundo.

E por isso venho descarregar um peso – pequenos arrependimentos publicados:

- Acerca de Clint Eastwood em Os Imperdoáveis


“Clint Eastwood está bem, mas está com a mesma cara e expressão de todos os westerns que faz, não que isso seja ruim, pois sempre está em forma, mas torna um pouco cansativo” (Epipoca, na seção Comentários)

Acho um ultraje ter escrito algo questionando toda sua essência em westerns. Eastwood tornou-se para mim um mito, e criticar somente para criticar é um abuso. Um homem fantástico e um gênio do cinema merece mais do que palavras pretensiosas de um crítico de blog. O sujeito possui uma presença em cena que não é de muitos.

- Acerca de um Top 10 Comédia (Os Intocáveis)

#9 – Crepúsculo dos Deuses. Pois é, eu falando que a Crítica não entendeu nada de Serpentes a Bordo, e, claramente, não havia entendido nada da obra excepcional de Wilder. Crepúsculo dos Deuses pode até ter aspectos satíricos, mas sua densidade é assustadorosamente dramática. Gloria Swanson é uma diva, e o cinema de Wilder não objetiva ironizá-la ou desmerecê-la, e sim homenageá-la, mostrando o drama de alguém que já foi querida.

- Acerca de O Ano Passado em Marienbad
O Ano Passado em Marienbad é um dos filmes mais monótonos que eu já vi, e não faz muito sentido” (Os Intocáveis)

Não cheguei a revê-lo. Mas dizer que o filme não faz sentido algum é mostrar mais uma vez minha imaturidade. Belo e compenetrante, meu sonho é realizar um filme com uma tomada igual à inicial deste. Monótono talvez, mas com certeza há alguns que ganham facilmente nessa modalidade (vide Pai e Filho, de Sokurov).

Por enquanto ficam essas, não quero alongar-me tanto num texto. Quem sabe um dia eu escrevo a parte 2 e falo que Godard é bom, interessante e que O Demônio das Onze Horas não é insuportavelmente chato?



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